Modelos Organizativos de Escolas e Métodos Pedagógicos

Modelo da Escola Tradicional . Modelo da Escola Nova . Modelo da Escola Activa . Modelo da Escola Conducionista . Modelo da Escola Construtivista

 

A questão dos métodos pedagógicos é frequentemente reduzida a um mero conjunto de técnicas para serem aplicadas na sala de aula, sem ter em conta os respectivos contextos escolares. Parte-se do pressuposto que a relação professor-aluno esgota todas as determinantes do processo educativo. Ambos são encarados como seres desenraizados, sem ligações no espaço escolar, imunes à sua cultura e ao tipo de organização. A análise dos problemas que enfrenta um professor quando introduz um novo método pedagógico, torna desde logo evidente a importância do contexto escolar para o sucesso ou fracasso da inovação. Na verdade, a receptividade que o professor encontra depende em grande medida do tipo de cultura e organização escolar que é seguido. A inovação na continuidade, é naturalmente mais facilitada do que a inovação em ruptura. Nesta primeira abordagem do assunto, farei um breve referência aos diversos tipos de modelos organizativos de escolas, com base na sistematização elaborada por Manuel Alvarez Fernández, procurando evidenciar os modelo pedagógicos que lhes estão implícitos.  

1. Modelo da Escola Tradicional

Este modelo, inspirado nas organizações militares e fabris, desenvolveu-se ao longo doséculo XIX, e ainda hoje subsiste em muitas organizações escolares, sobretudo ao nível das práticas quotidianas. 

1.1.Tipo de Gestão. A importância atribuída à ordem externa e à disciplina normativa são dois aspectos que caracteriza o modelo organizativo desta escola. Possui poucas e claras estruturas organizativas, sendo estas de tipo linear, verticais e normativas. A autoridade não se questiona, nem se discutem as decisões. O protótipo de gestor destas escolas, identifica-se com o burocrata autoritário, cuja principal preocupação é o controlo da aplicação dos programas e ordens emanadas do Estado. 1.2.Relação Professor-Aluno. Trata-se de um modelo que centra as suas preocupações na vontade dos alunos, na memória destes para reter ordens, normas recomendações, mas também na disciplina, obediência e no espírito de trabalho. A instrução tende a ser magistral e a cultura transmite-se  compulsivamente. A relação é a de superior-adulto que ensina a inferior-aluno que aprende mediante a instrução, e em clima de forte disciplina, ordem, silêncio, atenção e obediência em relação aos valores vigentes. Os programas são centralizados. 1.3. Curriculum.O saber aparece sob a forma de unidades isoladas de estudo. É um saber enciclopédico que se atomiza segundo as capacidades cognitivas dos alunos, sempre no quadro duma inteligência definida de modo muito limitado.  O curriculum está totalmente centralizado, cuja concepção e administração compete à administração central. Os professores tem pouca capacidade de variação dos conteúdos programáticos. O controlo é feito através de exames nacionais, e por um conjunto de provas de selecção entre os diferentes níveis de ensino. 1.4. Processo Didáctico. Preconizam-se os métodos dedutivos de ensino-aprendizagem, o aluno recorre o caminho de aprendizagem do abstrato para o concreto, do geral para o particular, do remoto para o próximo. Ora como nunca há tempo par concluir os programas, o aluno fica sempre numa fase abstrata, sem qualquer ligação com a sua vida, conforme escreve Manuel Alvarez Fernández. A preocupação central do professor concentra-se na memorização e a repetição dos conceitos.1.5.Materiais Didácticos. O modelo está centrado nos livros de texto repletos de conteúdos informativos e conceptuais, fragmentados de forma a serem mais facilmente memorizados. 1.6. Avaliação dos alunos. controlo da aprendizagem realiza-se unicamente mediante exames, que reflectem a capacidade retentiva e acumuladora dos alunos.   

2.Modelo da Escola Nova

Este modelo aparece em final do século XIX, e desenvolve-se até aos anos 20. Foi desde o início uma clara reacção contra o modelo da escola tradicional, e tudo o que a mesma significava. Estamos perante uma escola aberta, descentralizada e crítica da sociedade. A melhor forma de a identificar é ver o modo como nela são valorizada as  interacções com o meio social e se procura enriquecer as vivências do alunos incorporando no curriculum a cultura circundante. Fala-se pouco em disciplina, mas muito em convivência, dando-se uma enorme importância à participação, autogestão e auto-responsabilidade.  

2.1. Tipo de Gestão. Requer uma tipo de direcção próximo do modelo de animador socio-cultural, participativo e autogestionário. 2.2.Relação Professor-Aluno. Parte-se do princípio que o aluno é o centro da escola, o protagonista principal do processo de ensino aprendizagem, em torno do qual se desenvolvem os programas curriculares e a actividade profissional do docente. O professor é o orientador do processo educativo. Os princípios que regem as relações sociais na escola são: actividade, vitalidade, liberdade, individualidade e colectividade, estreitamente relacionados entre si. 2.3. Curriculum.   É muito diversificado, contemplando todos os aspectos da formação integral duma pessoa: a "vida física", " vida intelectual", "organização e procedimento de estudo", "educação artística e moral", "educação social", etc.2.3.Processo Didáctico.O processo de ensino-aprendizagem tem como centro de interesse a actividade, no que coincide com o modelo da escola activa. mas a experiência do aluno serve, neste caso, de base para a educação intelectual. É introduzido o conceito de manipulação como princípio da aprendizagem. Reforçando a ligação entre a teoria e a prática é dada grande importância aos traalhos manuais.  O professor conduz o processo de aprendizagem partindo da experiência do aluno, da observação, da manipulação, de actividades sobre realidades concretas como forma de se atingir, através do método indutivo, a abstração.2.4. Materiais Didácticos. Os livros de textos não são secundarizados no processo de ensino-aprendizagem, mas surgem como um conjunto de recursos que o aluno utiliza nas suas experiências e actividades.2.5. Avaliação. A avaliação é de natureza qualitativa.   

3.Modelo da Escola Activa 

Esta escola surge como reacção à escola tradicional, levando até às últimas consequências a escola nova, nomeadamente no modo como privilegia as actividades no processo educativo. Surgiu a partir dos anos 20. 

3.1. Tipo de Gestão. Trata-se de um modelo escolar assente numa grande interacção de todos os elementos que compõem a comunidade escolar. As relações pessoais são privilegiadas, assim como a preocupação de manter todos os canais de informação a funcionar de forma eficaz. O poder está muito repartido. A discussão, torna-se num elemento essencial na gestão, na medida que se procura obter contínuos consensos. As estruturas organizativas são mínimas, funcionando sempre na perspectiva do apoio às várias actividades em curso.  Requer uma direcção apostada na animação e negociação. O controlo global é confiado a toda a comunidade escolar. 3.2.  Relação Professor-Aluno. O professor remete-se para uma posição de facilitador de um processo de aprendizagem que é da iniciativa do aluno. A criatividade, a iniciativa, a liberdade individual, a acção, a descoberta de de são valores que presidem a todas as relações de trabalho. 3.3. Curriculum. Tudo é orientado em função dos interesses e vivências dos alunos, neste sentido os programas são muito abertos e pouco estruturados. Professores e alunos fazem coisas e  aprendem em conjunto.  3.4. Processo Didáctico. A aula é convertida numa oficina, onde os alunos aprendem destrezas, hábitos, técnicas para descobrir o mundo. A elaboração de quadros conceptuais são desta forma secundarizados face às actividades de realização de coisas. 3.5. Materiais Didácticos. Como na escola nova não existe um livro de textos. Nesta escola são os próprios alunos que constroem os seus próprios recursos educativos, com a ajuda do professor. 3.6. Avaliação. Não existe esta função. O importante é o próprio processo de aprendizagem.     

4. Modelo da Escola Conducionista

Esta escola surge como reacção à escola nova e á escola activa,  e especialmente ao seu carácter aparentemente desordenado nos processos de ensino aprendizagem. A sua fonte principal fonte de inspiração é a psicologia behaviorista ( da palavra inglesa, behaviour = comportamento), desenvolvida por psicólogos como John Watson, Skinner e outros, mas também se inspira na  reflexologia de Pavlov. O seu modelo pedagogico é a pedagogia por objectivos. Identifica-se com o modelo de uma escola disciplinada, tendo como padrões elevados padrões de eficácia. 

4.1.Tipo de Gestão. Requer um tipo de gestão  centralizada, com organogramas piramidais, uma forte dependência do poder central. A grande preocupação está na definição do papel das estruturas, funções, perfis e organogramas detalhados e normalizados. A legislação e a sua correcta interpretação possui nesta escola um papel fundamental, assim como tudo o que está escrito: actas, normas, memórias, etc. O estilo de direcção é o do burocrata, ordenado e meticuloso que se move com facilidade no meio dos papeis. 4.2.Relação Professor-Aluno.O professor converte-se num burocrata, cuja única função é interpretar em objectivos operativos e terminais os objectivos gerais definidos pelos Estado, e verificar continuamente se os alunos os conseguem atingir.A relação professor-aluno está marcada por centenas de objectivos que devem ser atingidos ao longo de todo o processo de ensino-aprendizagem. 4.3. Curriculum. O saber é transmitido em pequenas unidades, previamente divididas em função de objectivos específicos susceptíveis de serem mensuráveis. O aluno recebe estes conteúdos sem qualquer relação com os seus conhecimentos prévios. É dificil neste modelo pensar a globalização e a interdisciplinaridade. O curriculum transforma-se numa estrutura fechada e excessivamente dirigida. 4.4. Processo Didáctico. A obsessão pela eficácia imediata da acção educativa, traduz-se numa programação dos conteúdos do curriculum de forma que se manifestem em condutas observáveis em cda objectivo, o que conduz a uma homogeneização de métodos e técnicas, e de receitas para cada objectivo. 4.5.Materiais Didácticos. O material curricular centra-se basicamente no livro de textos, tendo como finalidade facilitar ao professor as tarefas programadas para conseguir atingir os objectivos. Muitas vezes surge o recursos a fichas de apoio destinadas a cobrir objectivos mais específicos. 4.6.Avaliação dos Alunos.  Dado que o processo de ensino aprendizagem se orienta para a atingir condutas observáveis, a avaliação de cada conduta condiciona o passo seguinte de processo de aquisição de uma nova conduta. Este facto implica um controlo absoluto em todos as etapas do processo de ensino, através de de instrumentos fiáveis de avaliação.

5.Modelo da Escola Construtivista

Este modelo aparece associado às contribuições no domínio da psicologia cognitivista de Jean Piaget, mas também de Bruner, Novak, Ausebel, Eliot e outros. Irrompe nos anos 60, quando se começa a falar da necessidade de ensinar aos alunos o processo da sua própria aprendizagem, ensinar a aprender, o que implica diversificar os conteúdos do curriculum. Deixa de ser importante aprender conceitos, conteúdos culturais, como unidades fechadas. Passa-se a dar uma enorme importância aos procedimentos, às estratégias cognitivas que conduzem o aluno à sua própria aprendizagem, mas também se tem em conta as normas, os valores , ou os princípios que estão subjacentes ao contexto e processo de aprendizagem.   Neste sentido, o professor deve agora conhecer as principais leis evolutivas e de aprendizagem e adaptá-las à sua prática pedagógica. Aprender a aprender, como afirma Manuel Alvarez Fernández, não é outra coisa que entender que alguns dos processos de ensino devem ensinar-se e ao mesmo tempo ensinar-se.

5.1. Tipo de Gestão. Trata-se do modelo de uma escola cuja actividade se centra em torno de um projecto educativo comum, e de um projecto curricular que sistematiza a vida da escola. Todas as estruturas da escolas são envolvidas na aprovação dos seus documentos essenciais, assim como na sua avaliação. Esta gestão requer uma direcção dirigida para a planificação, a animação do processo, a gestão dos recursos e estruturas, procurando suscitar permanentes consensos. 5.2.Relação Professor-Aluno. O professor é um mediador no processo de ensino-aprendizagem. Compete-lhe programar, orientar, organizar, proporcionar recursos, e animar as diferentes actividades proseeguidas pelos alunos; não é um mero instrutor, nem um simples avaliador. Ele ajuda o aluno a relacionar os novos conhecimentos novos com os anteriores, deixando que este controle todo o processo. 5.3.Curriculum. A definição do curriculum corresponde ao que a escola decidir, em função das suas necessidades específicas, e tendo em conta as metas fixadas pelo Estado. Este curriculum é portanto aberto e flexível. 5.4. Processo Didáctico. O aluno avança no conhecimento com a mediação do professor através da planificação e organização dos recursos ( tempo, materiais, conhecimento das suas capacidades), a acção (actividades que conduzem à descoberta) e o controlo, que permite reflectir e observar a própria prática. O processo didáctico fundamenta-se  na aprendizagem significativa e numa metodologia inspirada na investigação-acção. 5.5.Materiais Didácticos. Os manuais escolares e outros suportes de carácter instrumental são transformados em projectos curriculares a desenvolver na prática da aula. O aluno que enfrenta situações de aprendizagem diferentes necessita de materiais curriculares variados, e adequados às novas situações.5.6. Avaliação dos Alunos.  Parte do pressuposto que, em educação, os progressos da aprendizagem amadurecem muito lentamente, não se manifestam de maneira imediata. Por conseguinte é necessário relativizar a avaliação como medida de um produto, importa mais o prosseguimento do processo. Não valorizamos condutas observáveis, mas sim capacidades adquiridas no processo.    

Nesta breve síntese, procuramos destacar a inter-relação entre os diferentes tipos de organização e os métodos pedagógicos. Cada escola tende a valorizar uns em detrimento de outros. Em breve aprofundaremos este tema..  

Carlos Fontes

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